Resenha: Guardiões da Galáxia Vol. 2


Desde os eventos do primeiro filme, nossos heróis agora gozam de uma fama que ecoa pelas galáxias: são já comumente chamados de “Guardiões”, Peter Quill é largamente conhecido como “Star-Lord” (Senhor das Estrelas) e, ainda, dispõem da assistência daquela temível Frota Nova (algo sugerido, num diálogo). Eles irrompem o cosmos em sua nave, aproveitando a reputação pra fazer uma grana prestando serviços de proteção aos mais diversos reinos. Porém, parece difícil abandonar as origens como foras-da-lei, e manter positiva a reputação torna-se um desafio à parte; ao mesmo tempo, outra dificuldade é lidarem uns com os outros.
No aprendizado da convivência o grupo descobre ser mais: formam uma verdadeira família (com todas as falhas e desentendimentos que definem uma). Peter Quill e Rocket Raccoon competem feito irmãos briguentos; entre Peter Gamora há uma tensão romântica que vai evoluindo para algo além de apenas “um lance não verbalizado”; Mantis, nova personagem, é uma órfã solitária e figura melancólica (criada desde ‘larva’ pelo mestre, mentor e “pai adotivo”), cuja encontra no igualmente ingênuo, o lacônico brutamontes Drax, sua alma gêmea; o mercenário Ravager Yondu (de volta, e com um papel mais profundamente explorado), ora é um tio para Rocket, ora um pai para Quill; e tem o Baby Groot, que faz todo mundo na equipe ser um pouquinho mãe ou pai. 



E sobra problema pras famílias consanguíneas também. O mistério lançado no primeiro filme sobre a paternidade de Peter será enfim resolvido. Gamora e Nebulosa, as irmãs arqui-inimigas, filhas de Thanos (o grande vilão do Universo Marvel, a ser encarado no próximo Vingadores) aprenderão na marra o valor familiar do sangue. Drax é a todo tempo revisitado pelas memórias da família perdida (resgata emocionais momentos com a filha, esposa e pai). E, Ayesha, nova personagem vilanesca (importante nas HQ’s), tem uma peculiar relação maternal (tipo uma abelha rainha) com sua raça, os Soberanos, e com um personagem específico muito esperado pelos fãs (surpresa de cenas pós-créditos).

O conflito de Peter e seus “três pais” é central para o desenvolvimento da trama. Ele terá de revisitar suas memórias mais pueris: relembrar o amor pela mãe e a dor de perdê-la cedo (abertura do primeiro filme), como era ter uma infância sem pai (carência afetiva suprida pela conexão musical – com o ídolo oitentista David Hasselhoff, o “pai imaginário” do pequeno Peter), as circunstâncias mal resolvidas da sua adoção por Yondu (“pai” de criação) e, finalmente, conhecer o pai biológico, confrontando as obscuras e incômodas verdades evocadas por este encontro.

Com tantos conflitos dramáticos, é de se esperar: a produção despende maior tempo sobre um enredo mais discursivo, do que de ação frenética – e padece daquele mal dos blockbusters: diálogos dramáticos genéricos e fracos. A porrada come pra valer nos 30 ou 40 minutos finais, das mais de 2 horas de duração. Nem por isso, porém, o ritmo é enfadonho, arrastado, ou a trama soa como “encheção de linguiça”. Ademais, há pitadas de momentos mais movimentados no decurso da história, como a luta dos créditos iniciais, as peripécias do engenhoso Rocket (mais exploradas aqui), ou Yondu botando a casa abaixo enquanto esbanja todo o poder da sua flecha Yaka, numa fantástica sequência de fuga toda performática (música, cor e movimento em perfeita sincronia) e esteticamente impecável.

O tom é bastante leve e o resultado é hilário, de modo a nem percebermos a falta de uma ação constante. E aqui é onde se ancora a potência discursiva do filme: nos diálogos cômicos. O humor funciona uns 90% do tempo; sempre feitas num timing oportuno há piadas toscas, boas gags, sacadas rápidas e inclusive a malemolência de algumas piadas sujas (para certas audiências). Às vezes se arrisca até em quebras abruptas de ritmo, da ação ou do suspense para o humor. Ao não se levar a sério nem por um minuto e, além disso, ao abusar melhor de uma estética cartunesca, Guardiões da Galáxia Vol.2 termina por ser uma experiência ainda mais divertida do que o anterior. É uma obra notável pela sua completa despretensão.


Chama atenção a qualidade das representações gráficas, figurinos e cenários, sempre remetendo ao visual das HQ's. Aliás, até alterações radicais do cânone na adaptação, contraditoriamente expressam esse cuidado: tudo inserido de forma tão orgânica na história, que pode agradar até os fãs mais conservadores. Note-se, por exemplo, o primor na caracterização de personagens, como os Watchers (os misteriosos seres cabeçudos apresentados em duas breves cenas – fundamentais no universo Marvel, e provavelmente o serão também no Universo Cinematográfico da Marvel); o Ego, na forma planetária e na humana; a Mantis; ou Ayesha e seus Soberanos.

O time de atores volta o mesmo e refaz o bom trabalho esperado (talvez até mais coeso). O grande destaque vai para a escolha mais do que acertada do icônico Kurt Russel para o papel de principal antagonista, Ego, O Planeta Vivo. Russel é aquela figura cujo um sorriso casual já transmite receio (sabe do que estou falando quem já assistiu “À Prova de Morte”, de Quentin Tarantino), pela carinha natural de psycho insano do sujeito. Ele surge logo na primeira sequência, cheio de referências metalinguísticas ao próprio ator em si, e, claro, à grande personagem dos filmes de Guardiões da Galáxia: a trilha sonora (mais uma vez arrebentando tudo).


A playlist de Peter Quill gravada na sua maravilhosa fita cassete Awesome Mix Vol. 2 volta AWESOME, como era de se esperar. Aliás, a música desempenha um papel narrativo no desenvolvimento da história até maior do que no filme anterior. Sobram easter eggs ao já referido David Hasselhoff (quem canta a música título original, Guardians Inferno). A seleção pode soar estranha à muita gente, e o motivo é explicado pelo próprio diretor, James Gunn: são músicas marcantes de sua própria infância, sendo uma lista muito mais particular do que famosa.
Spoilers das cenas pós-créditos
E fique nas poltronas até a tela desligar e o pessoal da limpeza te expulsar, pois há cinco cenas pós-créditos! Segredinhos anteriores, como o casulo de Adam Warlock (esperado desde 2013, quando apareceu no inventário de raridades do Colecionador no pós-créditos de “Thor: Mundo Sombrio”), a menção a Celestiais, Howard The Duck, o cão Cosmo voltam, e há até a introdução de todo um novo núcleo de personagens: a equipe original dos Guardiões das HQ's (datada de 1969), liderada por Stakar Ogord (o Starhawk, ou Águia Estelar), mesma personagem de Sylvester Stallone. É explosão de cabeças pra fãs que não acaba mais. Ah, e claro, o sempre aguardado cameo de Stan Lee está impagável (e, pela primeira vez num filme do Universo Cinematográfico da Marvel, em dobro!).
Fim dos spoilers
Com razão disse Karen Gillan (Nebulosa) numa entrevista que Guardiões da Galáxia 2 está melhor do que o primeiro. Marvel e James Gunn assumiram riscos (mercadologicamente falando) avançando um patamar no flerte com o humor e com a fantasia espacial; e apenas acertaram ao fazer isso. Inauguram um marco no gênero de filmes de super-heróis, conferem um interessante caráter autoral à obra e ainda entregam de maneira satisfatória aos fãs a essência de "Guardiões": a sua verve despirocada. Depois de anos de parceria comercial, se há um filme-exemplo o qual possa exprimir o sucesso desse encontro entre Disney e a ‘Casa das Ideias’ no cinema, sem dúvida este filme é Guardiões da Galáxia 2.



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