Vida adulta: Não é bem assim

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Faça um desejo

Quando estamos no auge da construção das nossas certezas adolescentes - mais ou menos lá pelos quinze anos - nossa maior vontade é chegar o quanto antes aos dezoito. Há um mundo desconhecido e mágico a ser desbravado após atingir a maioridade, cuidadosamente arquitetado na nossa ingênua e fértil imaginação. Muitos planejam colocar meia dúzia de peças de roupa dentro de uma mala e cair no mundo, outros querem simplesmente cair fora da casa dos pais, outros querem é cair na sarjeta de tanto beber, porque agora – glória! - é legalmente permitido.

Perante a sociedade, aos dezoito, somos considerados cidadãos adultos. Temos a obrigatoriedade de votar; assumimos a responsabilidade por atos ilícitos. Estamos aptos a dirigir, a entrar em casas noturnas e carregamos a responsabilidade de escolher a profissão que possivelmente vai ser nosso ganha-pão pelo resto da vida. Quando de fato nos reconhecemos como adultos, percebemos que a coisa nem é tão legal e surpreendente assim.

O mais surpreendente, na verdade, é acompanhar certos paradigmas da adolescência caírem por terra. Um deles é de que os adultos são seres sábios e independentes.

A ideia que se tem é que os adultos são seres superiores, de inteligência inatingível e respostas para tudo; que são bem-resolvidos, dirigem, frequentam restaurantes descolados, são experts em cuidar da casa e das finanças, têm controle emocional e o principal: são bem sucedidos na maioria das coisas que se propõem a fazer. Pelo menos era isso o que eu pensava aos quinze anos – e isso não é verdade e só a descobrimos quando nos tornamos adultos e nos pegamos perdidos, duvidando de muitas coisas e insatisfeitos com com o que escolhemos na adolescência.

De fato, a sabedoria acumulada ao longo da vida é resultado das nossas experiências, que tende a ser lapidada e aprimorada ao passo que vamos envelhecendo. Porém, digo sem vergonha nenhuma (aliás, a perda da vergonha é outra consequência da maturidade): eu sei quase nada da vida. E isso não é um ônus adquirido somente por mim em decorrência da minha possível falta de intelectualidade. 

No entanto, crescer tem as suas vantagens: você não tem mais medo de ser quem você realmente é. O adolescente tem uma necessidade que já lhe é essencial de pertencer a um grupo social bem aceito pela maioria para provar seu poder, originalidade e inteligência - inquestionáveis aos olhos dos demais do bando. A gente descolore o cabelo, ouve as bandas mais descoladas, vai aos shows mais badalados, têm preferência pelas roupas de marcas famosas – essas pagas pelos nossos pais, os mesmos que muitas vezes nos deixam a duas quadras da festinha badalada porque é infantil e nada descolado ser visto na companhia deles. 

Quando nos percebemos adultos a coisa muda um pouco de figura. Hoje em dia, morro de medo de fazer qualquer intervenção química no cabelo, porque se algo der errado, vai dar muito trabalho para “restaurar as configurações originais”- e o que mais me sobra é preguiça. As únicas marcas que minhas roupas têm são as de água sanitária. Ouço de tudo um pouco, de música árabe à MPB, passando por clássicas e músicas trash anos 90 e não me importo nem um pouco em dizer para o mundo que eu gosto de Ana Carolina e Maria Gadú, mas aos quinze anos isso soaria esquisito. 

Ícones da música popular brasileira raramente estampam camisetas modernas ou acessórios – e na adolescência é muito importante materializar nossas preferências: as pessoas precisam ter certeza que somos os seres mais legais do planeta. E talvez eu me importasse, porque aos quinze anos eu queria mostrar para o mundo que eu estava dentro dos padrões convencionais da sociedade adolescente. Esse tipo de coisa torna-se ínfima perto de tantas outras preocupações que chegam com a maioridade - como as contas, por exemplo, ou em alguns casos, os cabelos brancos.

O amadurecimento nos traz mais aceitação de nós mesmos, mesmo que ainda não saibamos muito sobre o mundo que nos rodeia, talvez a maior descoberta da vida adulta seja essa: não viemos ao mundo para servir de enfeite ou se encaixar em padrões culturais ou intelectuais. Apesar de muito duvidar dos nossos próprios conceitos e assumir que sabemos pouco ou quase nada desse universo louco da maturidade, sabemos o que nos dá preguiça e o que é desnecessário. E essa é a sabedoria mais sublime, sagrada e indispensável: saber o momento certo de não estar nem aí pra nada – mesmo quando esperam muito de você - e poder enlouquecer de vez em quando, para não enlouquecer de vez. Na verdade, nada mais realmente importa: você agora é gente grande.

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